A segurança pública permanece entre os principais desafios da Baixada Fluminense, mesmo diante de indicadores que apontam avanços em determinados tipos de crime. Um levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), elaborado a partir de dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), mostra que a letalidade violenta apresentou redução ao longo da última década tanto no estado quanto na região. O cenário, entretanto, ainda é marcado por números expressivos de vítimas e pela transformação do perfil da criminalidade.
Segundo o Panorama da Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro 2015-2025, a Baixada Fluminense registrou 1.064 vítimas de letalidade violenta somente em 2025. Em todo o estado, foram contabilizadas 56.838 vítimas no período analisado. O estudo aponta, por outro lado, uma retração de crimes patrimoniais tradicionais, como roubos de rua, roubos de carga e roubos e furtos de veículos.
A redução desses indicadores, contudo, ocorre paralelamente ao crescimento de modalidades criminosas que passaram a exigir novas estratégias de investigação e prevenção. Na Baixada, os registros de estelionato saltaram de 5.321, em 2015, para 23.710, em 2025 — uma alta superior a 346%. A extorsão também avançou no período, passando de 404 para 653 ocorrências, crescimento de aproximadamente 62%. Diante dessa mudança, a Firjan defende políticas de segurança regionalizadas, capazes de considerar as características específicas de cada território.
Em Duque de Caxias, a situação evidencia outra dimensão do problema: a dificuldade de garantir a plena circulação em áreas afetadas pela presença de grupos criminosos. Uma fiscalização realizada pelo deputado estadual Marcelo Dino, na comunidade do Corte Oito, identificou barricadas construídas com lixo, concreto e outros materiais em pontos de acesso à localidade. Segundo o parlamentar, alguns obstáculos estavam instalados inclusive diante de câmeras de monitoramento.
A presença dessas barreiras representa não apenas um obstáculo físico à circulação, mas também um sinal da disputa pelo controle de determinados espaços urbanos. Quando vias públicas são bloqueadas, o problema ultrapassa a questão da mobilidade e alcança serviços essenciais, atendimento de emergência, transporte e a própria capacidade do poder público de exercer presença permanente nos territórios. O episódio do Corte Oito, nesse sentido, reforça a necessidade de ações que não se limitem à retirada pontual das estruturas, mas sejam acompanhadas de medidas capazes de impedir sua reinstalação.
A atuação policial também tem se concentrado na repressão a organizações criminosas envolvidas em modalidades de violência que extrapolam o tráfico de drogas. Em 14 de agosto, a Polícia Civil deflagrou a segunda fase da Operação Argus, investigação voltada a um grupo suspeito de envolvimento em cárcere privado, extorsão e lavagem de dinheiro. A ação foi coordenada por agentes da 59ª Delegacia de Polícia, em Duque de Caxias, e da Delegacia Antissequestro, com diligências em Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Mesquita, Rio de Janeiro e no Paraná.
De acordo com as investigações, a organização atuava de maneira estruturada, com divisão de tarefas para localizar e monitorar vítimas, restringir sua liberdade, obter informações e senhas bancárias sob ameaça e posteriormente movimentar e ocultar os valores obtidos. Um dos casos investigados envolveu uma vítima mantida sob poder dos criminosos por cerca de oito horas. O prejuízo identificado pelas autoridades chegou a aproximadamente R$ 500 mil. Na primeira etapa da operação, três integrantes do grupo haviam sido presos e uma vítima foi libertada.
O conjunto dos episódios revela um cenário de segurança pública que não pode ser avaliado por um único indicador. A queda da letalidade violenta e de determinados crimes patrimoniais representa um avanço importante, mas não elimina problemas relacionados à ocupação irregular de espaços públicos, à atuação de grupos criminosos e ao crescimento de crimes como estelionato e extorsão.
Na prática, a Baixada enfrenta uma criminalidade cada vez mais diversificada, que combina violência territorial, restrições à circulação e mecanismos de exploração econômica de moradores e comerciantes. O desafio das autoridades passa, portanto, pela combinação entre policiamento ostensivo, investigação qualificada, inteligência, retirada de obstáculos impostos por grupos criminosos e políticas públicas permanentes nos territórios.
Os dados também reforçam a importância de avaliar a segurança de maneira regionalizada. Como as dinâmicas criminais variam entre os municípios, respostas uniformes podem não ser suficientes para enfrentar problemas que assumem características diferentes em Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Mesquita e demais cidades da Baixada.
Nesse contexto, a segurança pública permanece como uma agenda de longo prazo. Os números indicam avanços que precisam ser preservados, mas também expõem novas frentes de atuação. Entre a redução de crimes violentos, a permanência de barricadas e a ofensiva contra grupos especializados em extorsão, o cenário da Baixada demonstra que o enfrentamento à criminalidade exige presença contínua do Estado, integração entre as forças de segurança e políticas orientadas pelos dados de cada território.








































































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