A dramaturgia brasileira perdeu, na noite de segunda-feira (17), uma de suas figuras mais emblemáticas. A atriz Laura Cardoso morreu aos 98 anos, em sua residência, em São Paulo, após mais de oito décadas dedicadas ao rádio, ao teatro, à televisão, ao cinema e à dublagem. A informação foi divulgada nas primeiras horas desta terça-feira (18) pelo perfil oficial da artista nas redes sociais e confirmada por seu bisneto, Fernando Faria. Segundo ele, a atriz morreu às 23h24, por causas naturais.
Nascida em São Paulo, Laura Cardoso construiu uma trajetória considerada histórica na cultura brasileira. Sua carreira começou ainda muito jovem, no rádio, antes de a televisão se consolidar no país. Em 1952, tornou-se uma das pioneiras da televisão brasileira ao atuar na TV Tupi. Ao longo das décadas seguintes, atravessou diferentes fases da dramaturgia nacional e participou de mais de 100 produções, incluindo mais de 60 novelas.

Entre os trabalhos que marcaram sua trajetória estão personagens de novelas como Mulheres de Areia, A Viagem, Fera Radical, Chocolate com Pimenta e A Vida da Gente. Sua presença na televisão se estendeu por gerações, consolidando uma relação de longa duração com o público e transformando seu nome em referência para diferentes gerações de atores.
Seu último trabalho em uma novela foi em A Dona do Pedaço, exibida em 2019, na qual interpretou Matilde Azevedo. Embora tenha reduzido sua participação em grandes produções nos anos seguintes, Laura não se afastou completamente da arte. Em 2025, esteve no curta-metragem Dona Rosinha, além de participar de uma vinheta de fim de ano da TV Globo, em uma de suas últimas aparições na televisão.
A carreira da atriz, porém, ultrapassou as novelas. No cinema, Laura participou de dezenas de produções e recebeu reconhecimento por seu trabalho. No teatro, construiu uma trajetória igualmente respeitada, com interpretações premiadas e trabalhos ao lado de importantes nomes da cena brasileira. Entre as distinções recebidas estão prêmios Grande Otelo, APCA e Shell, além da Ordem do Mérito Cultural.
Laura também deixou uma marca curiosa na memória afetiva de diferentes gerações por meio da dublagem. Entre 1963 e 1966, emprestou sua voz à personagem Betty Rubble, de Os Flintstones. Em entrevista concedida em 2019, a atriz revelou carinho especial pela experiência e destacou a particularidade do trabalho de sincronizar texto e imagem.
A relação de Laura com a própria trajetória artística permaneceu marcada pela dedicação ao ofício. Mesmo depois de décadas de carreira, ela continuava demonstrando entusiasmo pela profissão e pelo contato com o público. Em 2023, ao completar 96 anos, recebeu como homenagem uma boneca artesanal da personagem Betty Rubble, lembrança de um trabalho que também integra sua extensa história artística.

A despedida da atriz também trouxe à tona uma declaração feita por ela muitos anos antes. Em 2014, durante uma entrevista ao programa Provocações, da TV Cultura, Laura falou de maneira serena sobre a morte e afirmou que gostaria de partir dormindo, sem prolongar tratamentos por meio de aparelhos. A declaração voltou a repercutir após a confirmação de que ela morreu em casa, por causas naturais.
Além da reflexão sobre a própria finitude, naquela entrevista Laura falou sobre o desejo de viver em uma sociedade marcada por justiça, igualdade e paz. As declarações revelavam uma artista que, para além dos palcos e das telas, mantinha uma visão sensível sobre a vida e sobre o mundo ao seu redor.
O velório de Laura Cardoso ocorre nesta terça-feira (18), em uma casa funerária no bairro da Bela Vista, em São Paulo, das 8h às 14h, em cerimônia reservada à família.
Com a morte de Laura Cardoso, o Brasil se despede de uma atriz cuja trajetória se confunde com a própria história da dramaturgia nacional. Foram mais de oito décadas diante dos microfones, dos palcos e das câmeras, atravessando transformações profundas na televisão e no cinema brasileiros. Seu legado permanece registrado não apenas nos personagens que interpretou, mas também na formação de uma tradição artística da qual se tornou uma das mais respeitadas representantes.
Aos 98 anos, Laura encerra sua trajetória deixando uma obra extensa e uma presença que ultrapassou gerações. Para o público brasileiro, permanece a memória de uma artista que fez da interpretação um compromisso de toda a vida — e cujo nome já pertence, de forma definitiva, à história da arte e da televisão do país.








































































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