Neste 1º de março, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro completa 459 anos. A fundação da cidade ocorreu quando Estácio de Sá chegou nessas terras, entre o Morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar, no atual bairro da Urca, para estabelecer a cidade e retomar o território invadido pelos franceses em nome de Portugal. A dominação portuguesa na cidade foi consolidada dois anos depois, com a vitória dos portugueses aliados aos indígenas Temiminós sobre os Tamoios e os franceses, em 20 de janeiro de 1567, na Batalha do Uruçumirim. Estácio de Sá foi o protagonista desses dois eventos fundamentais para a fundação do Rio de Janeiro.
Estácio de Sá foi convocado pelo seu tio, Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil, para ajudar na luta contra os invasores franceses que estavam na cidade do Rio de Janeiro com o apoio dos indígenas Tupinambás, explica o historiador Rafael Mattoso. “Estácio de Sá veio para cá, um jovem fidalgo português, e ao chegar, ele teve que realizar um rito simbólico para mostrar que os portugueses estavam retomando a cidade. No dia 1º de março de 1565, ele realizou o ato de fundação do Rio de Janeiro”, diz Mattoso.
Durante a fundação, Estácio de Sá colocou uma porta simbólica aos pés do Morro Cara de Cão, que ele bateu e abriu para simbolizar a ocupação efetiva do território, explica o historiador. No entanto, esse marco foi apenas o início de uma disputa entre europeus aliados aos povos indígenas locais pelo domínio do Rio de Janeiro.
“Esse é o ato simbólico que comemoramos em 1º de março. Mas, a cidade foi fundada apenas formalmente, pois os franceses não foram expulsos imediatamente. Começou uma guerra intensa entre portugueses e franceses”, explica Rafael Mattoso. “Para enfrentar os franceses, que estavam aliados aos Tamoios, os portugueses tiveram que buscar ajuda dos Temiminós, inimigos dos Tamoios”, continua Rafael Mattoso. Um dos principais líderes dos Temiminós era o cacique Arariboia, que concordou em se unir a Estácio de Sá na batalha.
A vitória dos portugueses e dos Temiminós sobre os franceses e os Tamoios foi consolidada dois anos depois, em 20 de janeiro, dia de São Sebastião, que é feriado comemorado atualmente na cidade. “Muitas vezes confunde-se o dia 20 de janeiro com 1º de março, dia da fundação, porque são dois episódios feitos pelo mesmo personagem histórico, Estácio de Sá”, avalia Mattoso.
Dois anos após a chegada do militar português, em 20 de janeiro de 1567, ocorreu a batalha mais decisiva para a conquista definitiva dos portugueses. “Aí sim, houve a garantia da fundação da cidade”, explica o historiador. Trata-se da Batalha das Canoas, também conhecida como Batalha do Uruçumirim, como era chamada aquela região das praias da Glória e do Flamengo.
“Nessa batalha, há um ato simbólico. Os portugueses estavam perdendo e de repente um canhão português explodiu. Relata-se que saiu uma fumaça branca e os inimigos dos portugueses, os indígenas Tamoios, viram nessa fumaça a imagem de um guerreiro vindo contra eles. Criou-se a ideia de que esse guerreiro era São Sebastião, que foi escolhido como padroeiro da cidade do Rio de Janeiro quando a primeira expedição portuguesa chegou aqui em 1502”, acrescenta Mattoso.
Estácio de Sá morreu na Batalha do Uruçumirim, atingido por uma flecha envenenada no olho. Quem passou a liderar a vitória foi Arariboia. Do outro lado da disputa, centenas de Tamoios, liderados por Aimberê, e cinco franceses foram mortos. “Há todo esse sincretismo desses dois episódios, 1º de março e 20 de janeiro, que marcam o dia do padroeiro e da Batalha de Uruçumirim”, resume o historiador.
O dia 20 de janeiro:
O professor de História da Uerj e da UFF, Marcus Dezemone, destaca que a data de 20 de janeiro ganhou mais destaque para os cariocas devido à influência da religião católica até o Século XIX no Brasil, período em que houve uma fusão entre o Estado monárquico português e a Igreja.
“Até o século dezenove, existiu o regime do Padroado. Os reis de Portugal e, depois, os imperadores, a partir de 1822, eram responsáveis pela expansão da religião no Brasil. Tinham a atribuição de nomear bispos, por exemplo. Por isso, as festas católicas eram tão importantes. O 20 de janeiro até hoje é feriado e marcado por uma grande festa, uma vez que a cidade é consagrada a São Sebastião”, ressalta Dezemone.
Já 1º de março é a data da fundação simbólica da cidade na fortificação para proteger o território. “Não é feriado porque não tem festa religiosa”, explica o professor de História da Uerj e da UFF.
Por causa das religiões, o dia 20 de janeiro ganha destaque no calendário da cidade por ser o dia do santo padroeiro. “Esse santo é sincretizado como um guerreiro, caçador, Oxóssi, nas religiões de matriz africana. Um guerreiro indígena caçador, então tem toda essa relação religiosa com a data”, acrescenta Mattoso.
Foi o governador do então estado da Guanabara, Carlos Lacerda, em 1º de março de 1965, que estabeleceu oficialmente que o aniversário do Rio seria comemorado em 1º de março e não em 20 de janeiro.
Origem do Nome da Cidade:
O primeiro contato dos portugueses com a região que hoje é o Rio de Janeiro ocorreu em janeiro de 1502, quando uma expedição portuguesa avistou a Baía de Guanabara. Devido à semelhança com o Rio Tejo, em Portugal, deram o nome de Rio de Janeiro. A fundação efetiva da cidade aconteceu apenas em 1565, período em que os portugueses ainda não tinham consolidado sua presença no litoral brasileiro, explica o professor de História da Uerj e da UFF, Marcus Dezemone. Nessa época, o litoral brasileiro despertava o interesse de potências europeias, como os franceses protestantes. A Igreja Católica estava enfrentando a Revolta Protestante, e os franceses huguenotes estabeleceram na região do Rio de Janeiro a colônia França Antártica, que foi posteriormente dissolvida pelos portugueses no processo de fundação da cidade do Rio de Janeiro.
O nome São Sebastião do Rio de Janeiro é uma homenagem ao padroeiro, São Sebastião, e ao rei de Portugal da época, Dom Sebastião. “Ele se refere a Dom Sebastião, o rei português que desapareceu, iniciando assim o Sebastianismo”, lembra o professor Dezemone.
Outros eventos em 1º de março:
Além da fundação simbólica da cidade do Rio de Janeiro, o dia 1º de março também marca a data em que o Brasil oficialmente venceu a Guerra do Paraguai, em 1870. “Por isso, há uma rua no Centro chamada Primeiro de Março”, destaca Rafael Mattoso.
Lápide e Monumento a Estácio de Sá:
Após ser inicialmente enterrado no Morro Cara de Cão, os restos mortais de Estácio de Sá foram transferidos para o Morro do Castelo, que eventualmente foi demolido. Isso levou à transferência dos restos mortais do fundador português para a Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca, onde permanecem até hoje.
Nos anos 1970, quando o monumento em homenagem a Estácio de Sá foi construído no Aterro do Flamengo, houve uma tentativa de transferir os restos mortais para lá, porém a Igreja reivindicou a permanência da lápide nos Capuchinhos.
O monumento, em forma de pirâmide, possui uma das pontas voltada para o Morro Cara de Cão, onde a cidade foi fundada, outra para o Morro do Castelo, onde a ocupação urbana do Rio de Janeiro teve início, e a terceira ponta na direção da expansão da cidade.
Veja a programação:
Para celebrar os 459 anos do Rio, um ato cívico-religioso será realizado no Cristo Redentor, começando às 8h desta sexta-feira (1). O evento incluirá a execução do Hino Nacional Brasileiro e do Hino da Cidade do Rio de Janeiro pela Banda da Guarda Municipal, seguida por uma missa em Ação de Graças pelo aniversário, presidida pelo arcebispo do Rio, Cardeal Orani João Tempesta, com a presença do prefeito Eduardo Paes.
Após a celebração, será cortado o bolo comemorativo dos 459 anos do Rio e ocorrerá a entrega do troféu “O Mais Carioca de Todos”, produzidos pela Sociedade Amigos da Rua da Carioca e Adjacências (Sarca).
“Somos gratos a Deus por tantas bênçãos derramadas sobre o Rio de Janeiro e pedimos que abençoe esta nossa terra, cercada de belezas naturais, e esta nossa gente, iluminando os governantes, para que sempre haja paz e prosperidade nesta cidade e ela continue sendo maravilhosa”, declara o reitor do Santuário Arquidiocesano Cristo Redentor, Padre Omar.
O Museu do Amanhã realizará um passeio de bicicleta às 9h no sábado (2), na atividade “Museu na Rua”. O projeto percorrerá ruas que antes eram rios, mergulhando na história de fundação da cidade. Os 71 inscritos – as vagas estão esgotadas – farão um percurso de 11 km desde o Museu do Amanhã até o Monumento a Estácio de Sá.
“Essa visita foi pensada para a data do aniversário da cidade. Vamos partir da ideia de que os corpos hídricos foram importantes para a fundação e estabelecimento da cidade e passar por alguns desses pontos na Praça XV, no Largo da Carioca, Outeiro da Glória até chegar na foz do Rio Carioca, na Praia do Flamengo”, explica a coordenadora de Educação do Museu do Amanhã, Laís Daflon. Esta será a primeira de quatro edições realizadas no ano. As próximas atividades do Museu na Rua serão divulgadas nas redes sociais do museu.
Na Zona Sul, na Gávea, o Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro (MHC) receberá às 10h do domingo (3) o encontro literário com a autora do “Rio do meu tio” em comemoração ao aniversário da cidade. A Editora SM Educação preparou a atividade gratuita com a autora Lucia Fidalgo, que terá oficina de escrita criativa, bate-papo e sessão de autógrafos.
O projeto Música na Praça, organizado pelo Point Carioca Feiras, também estará no MHC no final de semana, 2 e 3 de março, celebrando o aniversário com arte, música, economia criativa e gastronomia. No sábado (2) haverá oficina de percussão gratuita e roda de samba ao vivo. A programação é grátis e de classificação livre.
Fonte: O Dia.






































































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